{"id":7952,"date":"2020-08-05T10:57:47","date_gmt":"2020-08-05T13:57:47","guid":{"rendered":"http:\/\/comuniquefacil.com.br\/1\/?p=7952"},"modified":"2020-08-05T10:57:47","modified_gmt":"2020-08-05T13:57:47","slug":"teletrabalho-se-consolida-em-gangorra-emocional-trazida-pela-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fessp-esp.org.br\/?p=7952","title":{"rendered":"Teletrabalho se consolida em gangorra emocional trazida pela pandemia"},"content":{"rendered":"<p id=\"article_date\">&nbsp;<\/p>\n<div class=\"article-fullnews-figure\">\n<p><em>A crise sanit\u00e1ria intensificou o uso de um recurso que j\u00e1 vinha crescendo no mundo do trabalho. Al\u00e9m da busca do equil\u00edbrio, j\u00e1 se discutem medidas como o \u201cdireito \u00e0 desconex\u00e3o\u201d<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<figure class=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cspb.org.br\/UserFiles\/Image\/tele1.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"377\"><figcaption><em><strong>Segundo o IBGE, h\u00e1 mais de 8 milh\u00f5es de pessoas em teletrabalho e esse n\u00famero vai crescer<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>por Vitor Nuzzi<\/em><\/p>\n<p>\u201cDe maneira&nbsp;geral estou trabalhando o mesmo n\u00famero de horas, s\u00f3 que mais produtivo. O problema \u00e9 que trabalho no meu quarto, ent\u00e3o parece que nunca saio de fato do trabalho\u201d, conta a engenheira ambiental V., de 27 anos, de Curitiba. \u201cA ansiedade aumentou, com certeza. O trabalho tem muita press\u00e3o e a conviv\u00eancia com o time trazia mais leveza. O meu trabalho em si e desempenho n\u00e3o foram afetados, pelo contr\u00e1rio, estou mais produtiva. Por\u00e9m sinto que minha sa\u00fade mental piorou.\u201d<\/p>\n<p>Para o professor universit\u00e1rio D., 42 anos, a dura\u00e7\u00e3o do expediente n\u00e3o mudou tanto, mas a intensidade aumentou. No teletrabalho, al\u00e9m das aulas (virtuais), que n\u00e3o foram interrompidas, e das pesquisas para orientar, \u00e9 preciso acompanhar o ritmo \u2013 acelerado \u2013 da filha de 4 anos. Ele se reveza com a mulher, tamb\u00e9m em&nbsp;home office, para cuidar da menina, da casa e trabalhar.<\/p>\n<p>\u201cA intensidade da minha jornada aumentou muito. Tem que ser uma jornada muito produtiva. Eu me sinto como um piloto de F\u00f3rmula Indy.&nbsp;Me sinto trabalhando mais porque eu nunca paro.\u201d O depoimento do professor, que atua em uma institui\u00e7\u00e3o privada em S\u00e3o Paulo, foi interrompido por um chamado da filha.<\/p>\n<p><strong>O desafio do equil\u00edbrio<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 mais de 8 milh\u00f5es de pessoas, segundo o IBGE, trabalhando no sistema de&nbsp;home office&nbsp;ou teletrabalho. Uma tend\u00eancia que j\u00e1 era crescente e ir\u00e1 se consolidar mesmo depois da pandemia. Neste momento, o desafio \u00e9 se equilibrar \u2013 profissional, f\u00edsica e emocionalmente \u2013 entre o trabalho, quest\u00f5es dom\u00e9sticas e familiares, o impedimento de sair, a vida fora do lugar.<\/p>\n<p>Mais que o modo de trabalho em si, a m\u00e9dica Maria Maeno aponta justamente a intensidade da jornada e as obriga\u00e7\u00f5es impostas em quantidade cada vez maior. \u201cO mais importante \u00e9 que as pessoas v\u00e3o continuar tendo de atingir metas e entregar produtos em tempos muitos ex\u00edguos\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Assim, todo mundo ir\u00e1 trabalhar \u201cno limite superior\u201d, como diz a m\u00e9dica e pesquisadora em sa\u00fade do trabalho. \u00c9 a busca do aumento da produtividade aliada \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o de desempenho. \u201cSabem que as metas n\u00e3o v\u00e3o ser atingidas, mas todo mundo vai tentar. Saber que isso pode resultar em uma avalia\u00e7\u00e3o ruim \u00e9 uma press\u00e3o constante. O ponto crucial \u00e9 o sistema de metas e os prazos frequentemente ex\u00edguos para as entregas de servi\u00e7os.\u201d<\/p>\n<p><strong>Regulamenta\u00e7\u00e3o e brechas<\/strong><\/p>\n<p>O&nbsp;home office, ou teletrabalho, foi regulamentado pela&nbsp;\u201creforma\u201d trabalhista&nbsp;aprovada em 2017. A Lei 13.467 define a modalidade como \u201ca presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os preponderantemente fora das depend\u00eancias do empregador, com a utiliza\u00e7\u00e3o de tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e de comunica\u00e7\u00e3o que, por sua natureza, n\u00e3o se constituam como trabalho externo\u201d.<\/p>\n<p>O comparecimento eventual ao trabalho, para alguma tarefa espec\u00edfica, n\u00e3o descaracteriza o regime. \u201cPela CLT, n\u00e3o pode haver distin\u00e7\u00e3o do trabalho realizado fora ou dentro das depend\u00eancias da empresa, ou seja, n\u00e3o pode haver distin\u00e7\u00e3o de remunera\u00e7\u00e3o ou recebimento de benef\u00edcios, como plano de sa\u00fade e vale-alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, observa o advogado Vitor Monaquezi Fernandes.<\/p>\n<p>Segundo ele, o teletrabalho exige um aditivo ao contrato. \u201cNeste pacto, dever\u00e1 constar quais ser\u00e3o as atividades que ser\u00e3o realizadas pelo trabalhador. Dever\u00e1 tamb\u00e9m constar com ser\u00e3o feitos os reembolsos ao empregado, caso ele tenha alguma despesa com equipamentos. Pois, apesar de estar trabalhando de casa, cabe \u00e0 empresa fornecer todo o equipamento necess\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p>De aproximadamente 2.600 den\u00fancias relativas \u00e0 pandemia, o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) recebeu 147 sobre teletrabalho. A maioria (139) refere-se a empresas que, mesmo podendo, n\u00e3o adotaram a modalidade. Em poucos casos, o empregador n\u00e3o quis ressarcir custos. A Procuradoria teve ainda um caso em que a empresa pressionou os funcion\u00e1rios para manter a c\u00e2mera ligada durante todo o hor\u00e1rio de expediente.<\/p>\n<p><strong>Carga hor\u00e1ria cresce<\/strong><\/p>\n<p>O problema, para o advogado, s\u00e3o dois artigos da CLT. O primeiro (62) estabelece que empregados em regime de teletrabalho est\u00e3o isentos de ter a sua jornada controlada e, consequentemente, n\u00e3o haver\u00e1 recebimento de horas extras ou a fiscaliza\u00e7\u00e3o do intervalo para almo\u00e7o. \u201cIsso tem acarretado, na pr\u00e1tica, um aumento significativo da carga hor\u00e1ria de trabalho. Na minha opini\u00e3o, isto n\u00e3o \u00e9 nem um pouco razo\u00e1vel, pois com a facilidade de acesso \u00e0 tecnologia \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel a empresa controlar os hor\u00e1rios dos funcion\u00e1rios\u201d, avalia.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o tem levado a atualiza\u00e7\u00f5es no Direito do Trabalho, lembra Vitor Fernandes. Em alguns lugares, como na Fran\u00e7a, j\u00e1 existe o chamado \u201cdireito \u00e0 desconex\u00e3o\u201d. A lei entrou em vigor em 2017. Recentemente, a Telef\u00f4nica assinou acordo nesse sentido, ap\u00f3s negocia\u00e7\u00e3o com a&nbsp;UNI Global Union, entidade sindical que abrange 20 milh\u00f5es de trabalhadores em 150 pa\u00edses.<\/p>\n<p>O diretor regional da UNI Am\u00e9ricas, Andr\u00e9 Rodrigues, lembra que a entidade assinou seu primeiro acordo, chamado marco global, justamente com a Telef\u00f4nica, em 2001, formando uma rede sindical internacional. \u201cA gente pressionou muito para que houvesse uma mesa permanente de negocia\u00e7\u00e3o global. E utiliza esse marco global para facilitar o di\u00e1logo entre o sindicato local e a empresa. Quando \u00e9 necess\u00e1rio e quando o sindicato solicita, a gente participa diretamente\u201d, relata.<\/p>\n<p><strong>Lei e acordo sobre desconex\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No ano passado, o direito \u00e0 desconex\u00e3o entrou na pauta a ser discutida com a Telef\u00f4nica. Segundo Andr\u00e9, o problema \u201cera bastante recorrente e grave\u201d, em v\u00e1rias empresas. \u201cUma das coisas que eles (chefes) mais reclamam \u00e9 as metas que eles t\u00eam e devem impor aos subordinados. Ent\u00e3o, come\u00e7amos a fazer uma campanha mundial. E a Telef\u00f4nica aceitou fazer essa conversa. E assinar como um anexo a esse acordo marco global.\u201d A discuss\u00e3o envolve aproximadamente 50 mil trabalhadores.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 2019, com o acordo assinado, os sindicatos locais iniciaram seus processos de negocia\u00e7\u00e3o, j\u00e1 conclu\u00eddos na Espanha, na Argentina e no Chile \u2013 e em andamento no Brasil e no Peru. Basicamente, a empresa reconhece o direito de o funcion\u00e1rio n\u00e3o responder nenhuma mensagem ou e-mail de trabalho se estiver fora de sua jornada, em hor\u00e1rio de descanso. Caso haja necessidade, deve haver um acordo, com notifica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u00e0 representa\u00e7\u00e3o sindical. Na Argentina conta Andr\u00e9, o acordo incluiu cl\u00e1usula pela qual a empresa n\u00e3o pode, sob nenhuma hip\u00f3tese, punir o funcion\u00e1rio ou impedir seu crescimento profissional pelo fato de n\u00e3o responder mensagens.<\/p>\n<p><strong>Regras para o retorno<\/strong><\/p>\n<p>Para este ano, previa-se a assinatura de outro acordo, justamente relativo ao teletrabalho, mas a pandemia atrapalhou o andamento das negocia\u00e7\u00f5es. Em maio, firmou-se outro anexo ao marco global, estabelecendo normas gerais para o retorno ao trabalho: disposi\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o, regras de sa\u00fade, seguran\u00e7a, exames, testes.<\/p>\n<p>Por falar em acordo, o outro artigo que o advogado Vitor Fernandes considera preocupante (75) determina que o empregador deve instruir os empregados, \u201cde maneira expressa e ostensiva\u201d, quanto \u00e0s precau\u00e7\u00f5es a fim de evitar doen\u00e7as e acidentes de trabalho.<\/p>\n<p>\u201cVeja que a lei diz dever\u00e1 instruir, mas n\u00e3o fiscalizar\u201d, observa. \u201cComo a CLT trata do assunto de uma maneira muito gen\u00e9rica, o caminho tem sido os sindicatos buscarem a regulamenta\u00e7\u00e3o mais espec\u00edfica em seus acordos e conven\u00e7\u00f5es coletivas.\u201d Dessa forma, conseguem estabelecer normas que garantem mais prote\u00e7\u00e3o. \u201cEst\u00e3o sendo pactuadas regras como proibi\u00e7\u00e3o de envio de mensagens em celular particular e de envio de e-mail\/mensagens ap\u00f3s determinado hor\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p><strong>Transformar facilidade em organiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A m\u00e9dica Maria Maeno tamb\u00e9m defende a pactua\u00e7\u00e3o. \u201cMuitos banc\u00e1rios, por exemplo, est\u00e3o bancando a banda larga, tiveram que providenciar um celular novo para o teletrabalho. Isso, no futuro, as empresas podem prover. Para a empresa, significa um gasto, mas n\u00e3o \u00e9 algo crucial. O problema n\u00e3o est\u00e1 relacionado \u00e0 informatiza\u00e7\u00e3o, mas ao sistema como um todo. Os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos t\u00eam sido \u00fateis nesta pandemia para diminuir o isolamento. Mas, ao mesmo tempo, s\u00e3o utilizadas para manter o trabalho o tempo todo na vida das pessoas, com intensifica\u00e7\u00e3o do ritmo. A gente tem de usar essas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas para a organiza\u00e7\u00e3o de pessoas e movimentos para alcan\u00e7ar condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho melhores.\u201d<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo Cristiano Nabuco fala em \u201creinven\u00e7\u00e3o\u201d. O desafio, segundo ele, \u00e9 como exercitar o direito \u00e0 desconex\u00e3o em um mundo t\u00e3o competitivo. \u201cDo jeito que est\u00e1vamos vivendo n\u00e3o ser\u00e1 mais poss\u00edvel. Estamos hoje de frente para o espelho, olhando para a nossa realidade como nunca olhamos.\u201d<\/p>\n<p>Desde mar\u00e7o em quarentena, a engenheira V. conta que o trabalho em si n\u00e3o mudou muito, mas todas as reuni\u00f5es passaram a ser virtuais. Nessa nova situa\u00e7\u00e3o, houve treinamento para melhorar a comunica\u00e7\u00e3o. \u201cO mais dif\u00edcil foi aprender a fazer tudo&nbsp;on-line, e n\u00e3o ter mais a possibilidade de ir na mesa de um colega pedir ajuda.\u201d<\/p>\n<p><strong>Deslocamento e flexibilidade<\/strong><\/p>\n<p>Ela relata pr\u00f3s e contras da nova rotina. \u201cN\u00e3o perco mais duas horas em deslocamento, posso acordar mais tarde e tenho mais flexibilidade de hor\u00e1rio. Hoje, sinto que o que importa \u00e9 se voc\u00ea entrega o resultado no final, e n\u00e3o se voc\u00ea passa mais tempo na mesa.\u201d<\/p>\n<p>Ali perto, sua m\u00e3e, a aut\u00f4noma R., 58 anos, conta que no seu caso o volume de trabalho diminuiu, mas a rotina da casa mudou bastante. \u201cTenho me dedicado a projetos pessoais que eu n\u00e3o conseguia encontrar brechas para desenvolver, como pesquisa e um livro. Por\u00e9m, acho importante salientar que em minha rotina o que mais mudou \u00e9 estar com a fam\u00edlia toda em casa na maior parte do dia, uma filha em home e um filho estudando online, o marido tamb\u00e9m vem almo\u00e7ar todos os dias, minha rotina ficou acelerada e de cabe\u00e7a para baixo para dar conta de tudo.\u201d<\/p>\n<p>A ansiedade n\u00e3o vem do trabalho, mas das incertezas, que s\u00e3o coletivas. \u201cSer\u00e1 que iremos sobreviver \u00e0 doen\u00e7a? Quando teremos vacina? Como ficar\u00e1 a economia?\u201d, questiona R.. Ela resume a nova situa\u00e7\u00e3o com humor: \u201cEstou conectada ao trabalho oficial e 24 horas conectada aos extras\u201d.<\/p>\n<p><strong>Fator humano<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 o professor D. mant\u00e9m sua rotina puxada no teletrabalho, que pode ir de 10 a at\u00e9 15 horas por dia. Com os \u201cextras\u201d de cuidar da filha e da casa, sem folga. Por causa do v\u00edrus, o casal dispensou a presen\u00e7a da diarista, mas continuou pagando o sal\u00e1rio. Assim como a engenheira, ele aponta o fator humano.<\/p>\n<p>\u201cA grande estranheza para mim, como professor, \u00e9 dar aula para alunos que de modo geral preferem n\u00e3o ligar a c\u00e2mera. Voc\u00ea d\u00e1 aula no escuro, basicamente. Isso \u00e9 um pouco solit\u00e1rio, tira do professor esse term\u00f4metro que s\u00e3o os olhares, as rea\u00e7\u00f5es, a interatividade.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<figure class=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cspb.org.br\/UserFiles\/Image\/tele2-1024x643.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"377\"><figcaption><em><strong>A internet \u00e9 uma ferramenta de trabalho. A quest\u00e3o \u00e9 como organizar a rotina para evitar sobrecarga e uma \u201cconex\u00e3o\u201d permanente<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Limites entre fam\u00edlia, lazer e trabalho: zonas de conflito<\/strong><\/p>\n<p>Para o psic\u00f3logo Bruno Chapadeiro Ribeiro, professor adjunto da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo (Umesp), nunca foi t\u00e3o necess\u00e1rio regulamentar o chamado \u201cdireito \u00e0 desconex\u00e3o\u201d, a fim de se evitar outro o que j\u00e1 vem se batizando de \u201ctecnoestresse\u201d. \u00c9 preciso buscar limites entre o per\u00edodo de trabalho e o de lazer, incluindo ainda a intera\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia. Tudo no mesmo ambiente, o que pode proporcionar \u201cpotenciais fontes de conflito\u201d.<\/p>\n<p>Mas ele acredita que do lim\u00e3o pode sair uma limonada, como diz o prov\u00e9rbio. O que tem se chamado de \u201cnovo normal\u201d pode ser visto como uma nova modalidade de precariza\u00e7\u00e3o. Um empecilho pode ser a conhecida desigualdade brasileira.<\/p>\n<p><strong>O teletrabalho j\u00e1 existia em menor escala antes da pandemia. O senhor acredita que se tornar\u00e1 uma tend\u00eancia crescente no mundo do trabalho?<\/strong><\/p>\n<p><em>Tenho dito que muitos setores far\u00e3o desse \u201clim\u00e3o uma limonada\u201d. O que \u00e9 esse t\u00e3o falado \u201cnovo normal\u201d se n\u00e3o somente a naturaliza\u00e7\u00e3o de velhos preconceitos e precariza\u00e7\u00f5es do trabalho que antes j\u00e1 aconteciam, mas de forma sutil? Segundo estudo da consultoria Marz, 86% das empresas brasileiras mandaram suas equipes inteiras, ou parte delas, trabalhar em casa. Os mais recentes dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada) e da PnadC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua) do IBGE mostram que o potencial estimado de trabalho atualmente no Brasil passa dos 20 milh\u00f5es. Outro estudo, coordenado pelo FMI, mediu o que chamaram de \u201c\u00edndice de viabilidade do teletrabalho\u201d e aponta que, sim, o teletrabalho ser\u00e1 uma tend\u00eancia crescente daqui pra frente. No entanto, h\u00e1 discrep\u00e2ncias socioecon\u00f4micas enormes entre os pa\u00edses que fazem com que tal modalidade de trabalho nem sempre seja uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel para os pobres sem acesso \u00e0 internet, os jovens sem forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria e as mulheres com sobrecargas nas tarefas dom\u00e9sticas.<\/em><\/p>\n<p><strong>Ao falar sobre a \u201cacelera\u00e7\u00e3o do tempo\u201d, o senhor at\u00e9 usou o exemplo do coelho da hist\u00f3ria de Alice. Como lidar agora com esse tempo? Como controlar a jornada no&nbsp;home office? Como fazer essa divis\u00e3o entre trabalho, fam\u00edlia, lazer, garantir pausas?<\/strong><\/p>\n<p><em>Vivemos uma acelera\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o do tempo que tem nos levado \u00e0 uma \u201csociedade do cansa\u00e7o\u201d nos termos do fil\u00f3sofo sul-coreano Byun-Chul Han. As novas rela\u00e7\u00f5es flex\u00edveis de trabalho promovem mudan\u00e7as significativas em nossa sociabilidade, nossa forma de lidar com o tempo e com a auto-refer\u00eancia pessoal, tendo em vista que alteram a rela\u00e7\u00e3o tempo de vida\/tempo de trabalho. O tempo de vida \u00e9 colonizado pelo tempo de trabalho. A invas\u00e3o da esfera da produ\u00e7\u00e3o \u00e0 da reprodu\u00e7\u00e3o social tem demonstrado que, por exemplo, os limites entre os hor\u00e1rios de trabalho ou lazer e as interrup\u00e7\u00f5es dos familiares sejam potenciais fontes de conflito, al\u00e9m da expectativa no\/na teletrabalhador(a) de que assuma mais responsabilidades quanto \u00e0s demandas dom\u00e9sticas, assim como, tamb\u00e9m, se acentuam as dificuldades no trato com as tecnologias. Uma recente pesquisa da Escola de Administra\u00e7\u00e3o de Empresas da FGV&nbsp;(Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas) mostrou 56% dos trabalhadores t\u00eam problemas para conciliar os dois universos. Tudo isso se intensifica ainda mais quando falamos de mulheres nesta condi\u00e7\u00e3o do chamado&nbsp;home office.<\/em><\/p>\n<p><strong>O senhor v\u00ea algum risco de o trabalhador permanecer conectado por per\u00edodo excessivo? Existe uma sensa\u00e7\u00e3o de estar permanentemente conectado ao trabalho? Quais as poss\u00edveis consequ\u00eancias?&nbsp;J\u00e1 se fala em quest\u00f5es como \u201ctecnoestresse\u201d e \u201cdireito \u00e0 desconex\u00e3o\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><em>H\u00e1 resultados preliminares de pesquisas sendo feitas nesse momento que t\u00eam apontado aumento nos relatos de sintomas de ansiedade, depress\u00e3o, ins\u00f4nia e irritabilidade. Para citar algumas, o estudo da FGV, citado acima, relata que 45,8% das pessoas perceberam um aumento da carga de trabalho e encontraram mais dificuldade para manter o foco. Outro, da rede social de empregos, Linkedin, mostrou que 62% se dizem mais ansiosos e estressados com o trabalho do que antes. E 68% t\u00eam trabalhado pelo menos uma hora a mais por dia, com alguns (21%) chegando a trabalhar at\u00e9 quatro horas\/dia a mais, e com enormes dificuldades em se desligar das atividades laborais. Nunca precisamos falar tanto e regulamentar o \u201cdireito \u00e0 desconex\u00e3o\u201d a fim de se evitar o \u201ctecnoestresse\u201d. Esta preocupa\u00e7\u00e3o, inclusive, est\u00e1 presente no PL 3.512\/2020, que tramita atualmente no Senado e que objetiva detalhar as obriga\u00e7\u00f5es do empregador na realiza\u00e7\u00e3o do teletrabalho.&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><strong>No seu dia a dia, o senhor ouve muitos relatos sobre isso? Como as pessoas t\u00eam lidado com essa nova realidade no dia a dia, na rela\u00e7\u00e3o com as fam\u00edlias, por exemplo? Quem tem filhos enfrenta uma quest\u00e3o adicional\u2026<\/strong><\/p>\n<p><em>Temos uma pesquisa intitulada \u201cprojeThos covid-19\u201d em que nos propusemos dar visibilidade \u00e0s viv\u00eancias e sentimentos relativos ao trabalho nesse contexto da pandemia do novo coronav\u00edrus. E o que mais nos chegam de relatos, al\u00e9m dos medos e ang\u00fastias que esse momento tem gerado, \u00e9 sobre a dificuldade das pessoas em conciliar as rotinas com crian\u00e7as\/fam\u00edlia e trabalho. O tal&nbsp;homeschooling, assim como a busca por atividades de entretenimento dos filhos, tem feito muitas m\u00e3es adentrarem no ponto virtual de trabalho no per\u00edodo noturno ou mesmo de madrugada para conseguir dar conta de todas as demandas. Nos chamou muito \u00e0 aten\u00e7\u00e3o o relato de uma jornalista em que ela diz: \u201cMe sinto cansada. Estou trabalhando tr\u00eas turnos, sendo que sou contratada para atuar 40 horas. Muito dif\u00edcil estabelecer limites quando trabalhamos de forma&nbsp;on-line, com WhatsApp o tempo todo. Minha casa n\u00e3o \u00e9 mais um lugar de descanso\u201d.<\/em><\/p>\n<p><strong>A socializa\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o do trabalho, como o sr. observou. Apesar da tecnologia permitir aproxima\u00e7\u00e3o r\u00e1pida entre as pessoas, qual o impacto da falta de contato humano no cotidiano profissional?<\/strong><\/p>\n<p><em>Sim, o trabalho \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o de algo, como tamb\u00e9m faz parte dele a socializa\u00e7\u00e3o entre os seres humanos. O afeto f\u00edsico reduz o estresse ao acalmar nosso sistema nervoso simp\u00e1tico, que durante momentos de preocupa\u00e7\u00e3o libera horm\u00f4nios de estresse prejudiciais ao nosso corpo. Estudos da \u00e1rea da psiconeurologia da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, demonstram que temos caminhos cerebrais que s\u00e3o especialmente dedicados a detectar o toque afetuoso, sendo este o modo como nossos sistemas biol\u00f3gicos comunicam um ao outro que estamos seguros, que somos amados e n\u00e3o estamos sozinhos. Por esse prisma, n\u00e3o h\u00e1 media\u00e7\u00e3o por telas que seja suficiente para desenvolvermos nossa humanidade. Por outro lado, n\u00e3o \u00e9 de hoje que temos tamb\u00e9m assistido \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o dos coletivos de trabalho com as reestrutura\u00e7\u00f5es e enxugamento dos ambientes de trabalho. Assim como, uma ode ao trabalho individualizado, algo que tem nos levado, inclusive, a se discutir as chamadas patologias da solid\u00e3o\/isolamento.<\/em><\/p>\n<p><strong>Como retomar o controle em uma situa\u00e7\u00e3o sem controle?<\/strong><\/p>\n<p><em>Em maio, o diretor-geral da da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus,&nbsp;disse considerar \u201cextremamente preocupante\u201d o impacto da pandemia na sa\u00fade mental das pessoas. \u201cO isolamento social, o medo de cont\u00e1gio e a perda de membros da fam\u00edlia s\u00e3o agravados pelo sofrimento causado pela perda de renda e, muitas vezes, de emprego\u201d, afirmou.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/nacoesunidas.org\/onu-servicos-de-saude-mental-devem-ser-parte-essencial-de-respostas-ao-coronavirus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u><strong>Documento das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/strong><\/u><\/a>&nbsp;aponta a necessidade de aumentar com urg\u00eancia o investimento em servi\u00e7os de sa\u00fade mental. E relat\u00f3rios indicam surgimento mais constante de sintomas de depress\u00e3o e ansiedade em v\u00e1rios pa\u00edses.<\/em><\/p>\n<p><strong>Alarme no c\u00e9rebro<\/strong><\/p>\n<p>Ao participar recentemente de debate virtual promovido pelo Tribunal Regional do Trabalho da 11\u00aa Regi\u00e3o, o psic\u00f3logo Cristiano Nabuco de Abreu remeteu \u00e0s origens da humanidade, que, vivendo em ambientes in\u00f3spitos, viu surgir a necessidade de planejamento e controle. \u201cEssa sensa\u00e7\u00e3o de controle traz uma sensa\u00e7\u00e3o de aquieta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Assim, em um momento, como o atual, que n\u00e3o se consegue responder nem mesmo as perguntas mais rotineiras, v\u00e1rias regi\u00f5es do c\u00e9rebro processam o \u201calarme\u201d, o que pode levar \u00e0 exaust\u00e3o e ao estresse. \u201cQuem tem pr\u00e9-disposi\u00e7\u00f5es para desenvolver fobias, depress\u00f5es, p\u00e2nicos, esse ambiente puxa o gatilho\u201d, observa.<\/p>\n<p>O que fazer, ent\u00e3o, diante de tanta falta de previsibilidade? Ele d\u00e1 algumas sugest\u00f5es para o teletrabalho. \u201cAntes de mais nada, tentar realizar uma rotina o m\u00e1ximo poss\u00edvel parecida com aquela que n\u00f3s t\u00ednhamos antes da pandemia\u201d, diz. \u201cO mesmo hor\u00e1rio de acordar, de tomar o caf\u00e9, tomar banho, jantar, dormir.\u201d<\/p>\n<p><em>Fonte: Rede Brasil Atual &#8211;&nbsp;<strong>RBA&nbsp;<\/strong><\/em><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A crise sanit\u00e1ria intensificou o uso de um recurso que j\u00e1 vinha crescendo no mundo do trabalho. 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